Tem a apresentação que você troca por um trabalho escrito. A entrevista que você não confirma. A mensagem difícil que fica em rascunho por uma semana. A matrícula na academia que espera o mês que vem. A conversa com aquela pessoa que você adia porque “não é a hora”.

No instante em que você decide não encarar, vem um alívio imediato e muito real. O problema é o que acontece depois, e o que esse alívio ensina.

O alívio que cobra juros

Quando algo assusta e você se afasta, a ansiedade cai na hora. Seu cérebro registra essa queda como prova de que a fuga funcionou, e conclui algo perigoso: aquilo era mesmo uma ameaça, e você só escapou porque evitou. Na próxima vez, o medo volta um pouco maior e o impulso de evitar, mais forte.

É assim que a evitação, que começa como uma solução pontual, vai estreitando a vida. Primeiro é uma apresentação. Depois são as aulas em que há chance de ser chamada. Depois é a disciplina inteira, o estágio que não foi tentado, o convite recusado. Nada disso acontece de uma vez. Acontece por pequenas decisões que, isoladas, parecem razoáveis.

Evitar tira a ansiedade de agora e devolve com juros depois. É por isso que o medo parece crescer justamente naquilo que você mais se afasta.

As formas disfarçadas de evitar

Nem toda evitação é não aparecer. Existem versões mais sutis, que passam despercebidas porque parecem organização ou cuidado:

Como sair disso sem se atropelar

A saída não é se jogar no que dá mais medo para provar coragem. Isso costuma confirmar o medo em vez de desfazê-lo. O caminho é gradual e previsível, um degrau de cada vez.

Quando procurar ajuda

Se a evitação já está decidindo coisas importantes por você, quais matérias cursar, quais oportunidades tentar, com quem conversar, ou se a sua rotina foi encolhendo sem que você percebesse, vale olhar para isso com apoio. Não porque você não seja capaz sozinha, mas porque montar a escada certa, no ritmo certo, é bem mais fácil acompanhada.

Na terapia, a gente entende o que mantém essa evitação de pé, pratica novos passos em ritmo possível e trabalha o medo de errar e de ser julgada que costuma estar por baixo, para que a sua vida volte a ser escolhida por você.

Este texto tem caráter informativo e não substitui o acompanhamento psicológico. Se você se identificou com o que leu, conversar com uma profissional pode ajudar.

Julia Martins é psicóloga (CRP 06/231113) e atende online adolescentes e jovens adultos de 13 a 30 anos que convivem com ansiedade, autocobrança e insegurança.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *