Tem a apresentação que você troca por um trabalho escrito. A entrevista que você não confirma. A mensagem difícil que fica em rascunho por uma semana. A matrícula na academia que espera o mês que vem. A conversa com aquela pessoa que você adia porque “não é a hora”.
No instante em que você decide não encarar, vem um alívio imediato e muito real. O problema é o que acontece depois, e o que esse alívio ensina.
O alívio que cobra juros
Quando algo assusta e você se afasta, a ansiedade cai na hora. Seu cérebro registra essa queda como prova de que a fuga funcionou, e conclui algo perigoso: aquilo era mesmo uma ameaça, e você só escapou porque evitou. Na próxima vez, o medo volta um pouco maior e o impulso de evitar, mais forte.
É assim que a evitação, que começa como uma solução pontual, vai estreitando a vida. Primeiro é uma apresentação. Depois são as aulas em que há chance de ser chamada. Depois é a disciplina inteira, o estágio que não foi tentado, o convite recusado. Nada disso acontece de uma vez. Acontece por pequenas decisões que, isoladas, parecem razoáveis.
Evitar tira a ansiedade de agora e devolve com juros depois. É por isso que o medo parece crescer justamente naquilo que você mais se afasta.
As formas disfarçadas de evitar
Nem toda evitação é não aparecer. Existem versões mais sutis, que passam despercebidas porque parecem organização ou cuidado:
- preparar-se infinitamente, sem nunca chegar ao momento de executar;
- ir ao evento, mas ficar no canto, no celular, sem falar com ninguém;
- só conseguir encarar algo acompanhada de uma pessoa específica;
- pedir garantias repetidas (“você acha mesmo que vai dar certo?”);
- deixar tudo para a última hora, para ter a desculpa pronta caso não saia bem;
- aceitar o que não quer para não ter de dizer não.
Como sair disso sem se atropelar
A saída não é se jogar no que dá mais medo para provar coragem. Isso costuma confirmar o medo em vez de desfazê-lo. O caminho é gradual e previsível, um degrau de cada vez.
- Nomeie o que você está evitando, com todas as letras, incluindo as versões disfarçadas.
- Monte uma escada. Se falar na aula é um 10, mandar uma mensagem no grupo pode ser um 3, e perguntar algo ao professor no fim da aula, um 5. Comece por um degrau que dê para subir.
- Fique até a ansiedade baixar um pouco, em vez de sair no pico dela. É a permanência que ensina ao seu corpo que aquilo era suportável.
- Repita antes de subir. Um degrau repetido algumas vezes perde força; um degrau feito uma vez só costuma continuar assustando.
- Avalie pelo que você fez, não pelo quanto sentiu. Ter ido tremendo continua sendo ter ido.
Quando procurar ajuda
Se a evitação já está decidindo coisas importantes por você, quais matérias cursar, quais oportunidades tentar, com quem conversar, ou se a sua rotina foi encolhendo sem que você percebesse, vale olhar para isso com apoio. Não porque você não seja capaz sozinha, mas porque montar a escada certa, no ritmo certo, é bem mais fácil acompanhada.
Na terapia, a gente entende o que mantém essa evitação de pé, pratica novos passos em ritmo possível e trabalha o medo de errar e de ser julgada que costuma estar por baixo, para que a sua vida volte a ser escolhida por você.
Este texto tem caráter informativo e não substitui o acompanhamento psicológico. Se você se identificou com o que leu, conversar com uma profissional pode ajudar.
Julia Martins é psicóloga (CRP 06/231113) e atende online adolescentes e jovens adultos de 13 a 30 anos que convivem com ansiedade, autocobrança e insegurança.